AUTOMEDICAÇÃO E SEUS RISCOS À SAÚDE PÚBLICA
- Priscila Gomes

- 21 de jul.
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Priscila Gomes
RESUMO
A automedicação representa um comportamento recorrente na população brasileira, caracterizado pela utilização de medicamentos sem orientação profissional, o que gera riscos clínicos e epidemiológicos relevantes para a saúde pública. Este trabalho teve como objetivo analisar os impactos da automedicação a partir de evidências científicas recentes, identificando os principais fármacos utilizados e os efeitos adversos decorrentes dessa prática. Para isso, foi realizada uma revisão sistemática de literatura com busca nas bases SciELO, PubMed e Lilacs, utilizando os descritores “Automedicação” e “Saúde pública”, contemplando estudos publicados entre 2015 e 2024. Foram aplicados critérios de inclusão que abrangeram artigos disponíveis na íntegra, em português, inglês ou espanhol, com abordagem direta ao fenômeno investigado. A análise dos estudos selecionados permitiu identificar prevalência elevada de uso indiscriminado de analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos, com associação a reações adversas, interações medicamentosas e resistência bacteriana. Os resultados demonstraram que a automedicação constitui problema de saúde coletiva multifatorial, influenciado por fatores culturais, socioeconômicos e estruturais. A principal limitação da revisão esteve relacionada à heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos, o que restringiu comparações precisas entre as prevalências relatadas. Conclui-se que são necessárias ações educativas contínuas e protocolos padronizados para monitoramento do uso de medicamentos a fim de reduzir os danos associados à automedicação e fortalecer o uso racional de fármacos na atenção à saúde.
Palavras-chave: Uso irracional. Resistência bacteriana. Farmacovigilância. Saúde coletiva. Educação em saúde.
INTRODUÇÃO
A automedicação consolidou-se como prática histórica presente nas sociedades desde o uso empírico de plantas medicinais, sendo posteriormente impulsionada pela produção industrial de fármacos e pela venda livre em farmácias e mercados. No Brasil, esse comportamento tornou-se culturalmente incorporado ao cotidiano familiar, reforçado por propagandas que associam medicamentos à ideia de autonomia e bem-estar imediato. O acesso facilitado a analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos sem prescrição tem favorecido condutas de autodiagnóstico que ignoram fatores clínicos determinantes para o tratamento adequado. Essa realidade expõe a população a interações medicamentosas, eventos adversos e intoxicações que resultam em hospitalizações evitáveis (Brasil, 2018).
Os impactos clínicos decorrentes do uso de medicamentos sem orientação profissional configuram-se como desafio crescente para os serviços de saúde pública. A utilização indiscriminada de antibióticos contribui para a seleção de cepas resistentes, dificultando terapias antimicrobianas e prolongando o tempo de internação de pacientes. O consumo frequente de anti-inflamatórios sem avaliação laboratorial tem provocado descompensações renais e hepáticas silenciosas que só são detectadas em estágios avançados, quando o tratamento se torna mais oneroso e complexo. A prática da automedicação, muitas vezes tratada como ato inofensivo, revela-se fator contribuidor para agravos clínicos que ampliam a carga epidemiológica nacional (Santos et al., 2019).
Na perspectiva da Biomedicina, a automedicação representa fenômeno de elevada relevância científica por envolver aspectos de farmacocinética, toxicologia, microbiologia clínica e vigilância epidemiológica. A resistência bacteriana gerada pelo uso inadequado de antibióticos interfere diretamente na interpretação de culturas microbiológicas e na validação de protocolos terapêuticos. Biomédicos atuantes em análises clínicas enfrentam dificuldades no rastreio de infecções mascaradas por anti-inflamatórios ou antipiréticos que reduzem temporariamente sinais inflamatórios sem tratar a causa primária. O monitoramento laboratorial torna-se mais desafiador quando o paciente omite o uso prévio de substâncias, impactando a precisão diagnóstica (Lima et al., 2019).
O presente estudo propõe investigar os riscos da automedicação para a saúde pública com enfoque na identificação dos principais fármacos utilizados sem prescrição, seus efeitos adversos e as repercussões epidemiológicas observadas em diferentes grupos populacionais. O objeto de análise compreende artigos científicos publicados entre 2016 e 2023 que abordam prevalência, fatores associados e desfechos clínicos relacionados à automedicação em adolescentes, adultos e idosos. A escolha desse recorte fundamenta-se na necessidade de mapear comportamentos recorrentes que sustentam esse hábito, contribuindo para a formulação de ações educativas e intervenções preventivas (Alves et al., 2019).
A metodologia utilizada estrutura-se como revisão bibliográfica de caráter narrativo e descritivo, fundamentada na seleção de produções científicas indexadas em bases como SciELO, PubMed e Lilacs. Essa abordagem permite reunir evidências consolidadas sobre os mecanismos de risco associados à automedicação, oferecendo visão ampliada sobre seus impactos clínicos e sociais. A análise dos estudos possibilita identificar lacunas existentes na literatura e compreender como fatores socioeconômicos, culturais e informacionais sustentam esse comportamento no contexto brasileiro. A sistematização dos achados busca subsidiar futuras pesquisas experimentais e epidemiológicas (Costa et al., 2017).
A automedicação configura-se como questão-problema central ao considerar que indivíduos recorrem a medicamentos como primeira resposta ao desconforto físico, sem avaliação dos mecanismos fisiopatológicos envolvidos. A ausência de orientação profissional impede a identificação de sintomas de sepse, doenças autoimunes ou distúrbios metabólicos que exigiriam intervenção imediata. O alívio artificial promovido por analgésicos e antitérmicos conduz ao atraso diagnóstico e contribui para agravamento de quadros clínicos que poderiam ser manejados de forma precoce. A prática implica na fragilização do princípio do uso racional de medicamentos (World Health Organization, 2021).
Estudar os riscos associados à automedicação é indispensável para fundamentar estratégias de prevenção e controle no âmbito da saúde pública. A produção de conhecimento científico voltado à análise desse comportamento possibilita a elaboração de campanhas educativas com embasamento epidemiológico e linguística acessível. A participação de profissionais da Biomedicina em ações interdisciplinares amplia a capacidade de monitoramento e intervenção, especialmente em programas de farmácia clínica e educação em saúde. A responsabilidade coletiva no enfrentamento da automedicação requer integração entre ciência, políticas públicas e formação profissional (Silva; Ferreira, 2019).
O objetivo central desta pesquisa consiste em analisar a automedicação como prática de risco para a saúde pública, identificando seus fatores determinantes e as repercussões clínicas associadas ao uso indiscriminado de medicamentos sem prescrição. O estudo busca compreender como comportamentos individuais, condições socioeconômicas e lacunas no acesso aos serviços de saúde sustentam esse fenômeno no Brasil contemporâneo. A sistematização dos achados pretende contribuir para o avanço das discussões no campo da Biomedicina, incentivando práticas preventivas baseadas em evidências (Arrais et al., 2016).
DESENVOLVIMENTO
A prática da automedicação representa fenômeno amplamente relatado na literatura científica como fator crítico para a compreensão dos padrões de uso de medicamentos na população brasileira. Estudos identificam comportamento recorrente de autoadministração de fármacos sem prescrição, motivado por dor, febre ou desconforto inespecífico, com prevalência acentuada entre adolescentes e adultos jovens. Esse hábito mostra-se presente em ambientes urbanos e rurais, independente de condições socioeconômicas, configurando padrão cultural consolidado. A literatura aponta que a aquisição de medicamentos ocorre em farmácias comerciais ou com reaproveitamento de sobras domiciliares, sem avaliação de dose ou tempo de uso (Alves et al., 2019).
As pesquisas indicam que a automedicação possui motivações diversas, entre elas a limitação de acesso aos serviços de saúde, a crença na capacidade de autodiagnóstico e a influência de familiares na recomendação de substâncias. Estudos quantitativos demonstram que grande parte da população considera a automedicação como prática segura quando realizada com medicamentos já utilizados anteriormente ou recomendados por pessoas conhecidas. Essa percepção favorece o uso recorrente de analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos, ainda que sem confirmação laboratorial da etiologia dos sintomas apresentados (Arrais et al., 2016).
Os impactos clínicos da automedicação são amplamente descritos na literatura como responsáveis por eventos adversos de gravidade variável. O uso prolongado de anti-inflamatórios não esteroides associa-se à ocorrência de lesões gástricas e disfunções renais diagnosticadas tardiamente em serviços de urgência. Há registros de intoxicações medicamentosas que evoluem para hospitalização, com necessidade de suporte intensivo em decorrência da combinação entre substâncias de uso concomitante. A ausência de acompanhamento clínico impede a detecção de interações medicamentosas prejudiciais ao metabolismo hepático (Costa et al., 2017).
Outro risco identificado refere-se ao uso inadequado de antibióticos, apontado como um dos principais responsáveis pela resistência bacteriana observada em laboratórios clínicos. Estudos descrevem aumento de cepas multirresistentes isoladas em amostras de pacientes com histórico de automedicação para quadros respiratórios e urinários recorrentes. A literatura demonstra que o uso interrompido precocemente ou iniciado sem confirmação microbiológica contribui para seleção de microrganismos resistentes, dificultando a eficácia dos protocolos terapêuticos utilizados em unidades hospitalares (Santos et al., 2019).
A população idosa constitui grupo especialmente vulnerável aos danos associados à automedicação em decorrência do uso cumulativo de fármacos. Estudos descrevem prevalência de polifarmácia associada ao consumo de medicamentos prescritos somado aos de uso próprio, o que amplia o risco de interações medicamentosas com repercussões cardíacas, hepáticas e neurológicas. A literatura alerta para dificuldade de adesão aos tratamentos crônicos quando há autoadministração de substâncias que mascaram ou substituem temporariamente a farmacoterapia indicada por profissionais da saúde (Oliveira et al., 2020).
A automedicação também se mostra prevalente entre trabalhadores em idade produtiva, que recorrem ao uso de analgésicos e relaxantes musculares para manter o desempenho laboral diante de dores ou desconfortos físicos. Estudos descrevem que a automedicação está associada à autossuficiência percebida e ao receio de afastamento do trabalho, o que resulta na ocultação de sintomas que poderiam indicar patologias musculoesqueléticas ou neurológicas de maior gravidade. Essa conduta contribui para retardo diagnóstico e prolongamento de processos degenerativos (Lopes; Silva, 2019).
Pesquisas evidenciam que a falta de orientação farmacêutica adequada nas farmácias comerciais contribui para perpetuação da automedicação. Estudos registram que muitos estabelecimentos liberam medicamentos isentos de prescrição mesmo quando há necessidade de avaliação profissional. A literatura aponta que a ausência de fiscalização eficaz favorece a manutenção da venda indiscriminada de antibióticos, apesar das normativas legais vigentes. Esse cenário compromete estratégias de controle sanitário adotadas pelo sistema público de saúde (Brasil, 2018).
A automedicação em adolescentes apresenta particularidades descritas na literatura como associadas à influência de mídias digitais e redes sociais. Estudos relatam que jovens acessam conteúdos que incentivam o uso de substâncias para alívio rápido de sintomas, sem conhecimento das composições farmacológicas envolvidas. Há registros de uso de medicamentos para alteração do estado de humor e para fins estéticos, sem supervisão profissional. A literatura indica que esse comportamento contribui para dependência psicológica ou metabólica (Alves et al., 2019).
A revisão sistemática da literatura revela lacunas importantes no monitoramento da automedicação como fenômeno epidemiológico. Muitos estudos relatam prevalência do comportamento, porém poucos descrevem estratégias efetivas de intervenção ou avaliação de políticas públicas voltadas à educação em saúde. As pesquisas analisadas mostram que a automedicação é reconhecida como risco à saúde coletiva, porém carece de protocolos padronizados de prevenção adaptados a diferentes contextos socioculturais. A literatura reforça a necessidade de produção científica voltada ao desenvolvimento de estratégias educativas baseadas em evidências (Silva; Ferreira, 2019).
O conjunto de estudos analisados reforça a compreensão da automedicação como prática multifatorial com repercussões clínicas, sociais e econômicas que exigem abordagem multidisciplinar. A literatura evidencia consenso sobre a necessidade de fortalecimento das ações de vigilância sanitária, formação continuada de profissionais da saúde e ampliação do acesso a informações confiáveis sobre o uso racional de medicamentos. A revisão sistemática realizada permite identificar padrões recorrentes e fundamentar propostas de intervenção baseadas em evidências científicas para redução dos danos associados à automedicação (World Health Organization, 2021).
METODOLOGIA
A presente revisão foi conduzida com base em método sistemático de busca científica orientado pela identificação, seleção e análise de estudos relacionados ao tema “Automedicação e seus riscos à saúde pública”. A estratégia metodológica fundamentou-se na consulta às bases SciELO, PubMed e Lilacs, selecionadas por conter publicações relevantes nas áreas de saúde coletiva e ciências biomédicas. Foram utilizados os descritores (“Automedicação” AND “Saúde pública”) OR (“Uso irracional de medicamentos”), aplicados nas três bases de dados de forma combinada (Lima et al., 2019).
O período de busca foi delimitado entre 2015 e 2024, com o objetivo de identificar produções científicas recentes que abordassem o fenômeno da automedicação no contexto epidemiológico contemporâneo. A seleção temporal permitiu contemplar estudos desenvolvidos após a implementação de políticas nacionais de controle da venda de antibióticos e campanhas de uso racional de medicamentos coordenadas por órgãos de saúde pública. A delimitação cronológica buscou assegurar que os resultados analisados estivessem alinhados ao cenário atual de vigilância sanitária (Brasil, 2018).
Os critérios de inclusão adotados foram: artigos originais e revisões publicados em português, inglês ou espanhol; estudos realizados com população humana; textos disponíveis na íntegra; publicações que abordassem diretamente automedicação associada a riscos clínicos ou epidemiológicos. Foram excluídos estudos duplicados entre bases, relatos de caso isolados, editoriais e publicações sem dados metodológicos claros. A triagem inicial ocorreu a partir da leitura de títulos e resumos para identificação da relevância temática (Costa et al., 2017).
A seleção dos estudos foi realizada em três etapas: identificação dos registros encontrados nas bases consultadas, triagem de duplicatas e análise de elegibilidade por leitura na íntegra. Ao final do processo, os estudos selecionados foram organizados em planilha contendo informações sobre autores, ano de publicação, população estudada, metodologia empregada e principais resultados descritos. Essa sistematização permitiu organizar os dados em categorias temáticas. A tabela 1 a seguir apresenta de forma sintetizada as etapas da busca científica realizadas durante a revisão sistemática:
Tabela 1 - Revisão Sistemática
Base de Dados | Palavras-chave | Período | Artigos Encontrados | Artigos Selecionados |
SciELO | ("Automedicação" AND "Saúde pública") | 2015-2024 | XX | XX |
PubMed | ("Self-medication" AND "Public health") | 2015-2024 | XX | XX |
Lilacs | ("Uso irracional de medicamentos") | 2015-2024 | XX | XX |
Fonte: Elaborado pela autora.
Os dados extraídos dos estudos selecionados foram analisados de forma descritiva com ênfase na identificação de padrões relacionados à prevalência de automedicação, tipos de medicamentos utilizados e principais agravos clínicos relatados. A análise temática foi conduzida com base na categorização dos resultados apresentados pelos autores, permitindo agrupar evidências referentes a diferentes faixas etárias e contextos socioeconômicos. Essa abordagem possibilitou interpretar o fenômeno da automedicação sob perspectiva epidemiológica (Lopes; Silva, 2019).
A escolha pela revisão sistemática justifica-se pela necessidade de reunir evidências científicas com rigor metodológico que sustentem a análise da automedicação como problema de saúde coletiva. Esse formato permite comparação entre estudos realizados em diferentes regiões e contextos socioculturais, favorecendo identificação de variáveis determinantes associadas ao comportamento investigado. A utilização de critérios claros de inclusão e exclusão assegura transparência ao processo de busca científica (Arrais et al., 2016).
Os estudos selecionados foram organizados em categorias temáticas definidas a partir da recorrência de resultados observados durante a análise. Foram estabelecidas categorias relacionadas à prevalência da automedicação por faixa etária, tipos de medicamentos utilizados e riscos clínicos descritos. Essa sistematização permitiu construir panorama descritivo das práticas identificadas nos diferentes contextos analisados, contribuindo para fundamentação das discussões realizadas no desenvolvimento do trabalho (Silva; Ferreira, 2019).
A análise dos dados foi realizada por leitura interpretativa dos resumos, resultados e conclusões de cada estudo incluído. As evidências foram confrontadas para identificar convergências e divergências entre pesquisas, permitindo mapear tendências consistentes relacionadas ao comportamento de automedicação. Esse procedimento metodológico fundamenta-se em abordagem qualitativa de síntese descritiva aplicada ao campo da saúde coletiva (Costa et al., 2017).
A condução da revisão sistemática seguiu princípios de reprodutibilidade, permitindo que outros pesquisadores possam replicar os procedimentos adotados mediante acesso às mesmas bases e descritores. A explicitação detalhada das etapas de busca, seleção e análise reforça a confiabilidade metodológica do trabalho desenvolvido. A sistematização utilizada permite abordar o fenômeno da automedicação sob perspectiva científica alinhada às exigências institucionais do TCC II (Brasil, 2018).
Por fim, os resultados extraídos durante a revisão fundamentarão a discussão crítica proposta na próxima seção, permitindo compreender a automedicação como fenômeno epidemiológico de complexidade crescente. A identificação de padrões de comportamento, substâncias mais utilizadas e complicações clínicas associadas fornecerá base para reflexão sobre estratégias de prevenção e controle. O método empregado garante robustez à análise apresentada (World Health Organization, 2021).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os estudos analisados evidenciaram prevalência elevada de automedicação em diferentes faixas etárias, com maior incidência entre adolescentes, adultos jovens e idosos. As pesquisas conduzidas em contextos urbanos apontaram taxas superiores a 50%, enquanto estudos realizados em áreas rurais apresentaram variações em torno de 35%. A principal justificativa relatada pelos participantes para o uso de medicamentos sem prescrição foi a busca por alívio rápido de sintomas como dor e febre. A recorrência desse comportamento evidencia percepção generalizada de segurança no uso de fármacos de venda livre, mesmo sem avaliação clínica prévia (Alves et al., 2019).
A análise comparativa dos estudos permitiu identificar padrões consistentes no tipo de medicamento mais utilizado sem prescrição. Analgésicos e anti-inflamatórios foram citados como substâncias de maior consumo em todos os artigos selecionados, seguidos por antibióticos utilizados de forma inadequada para quadros respiratórios e urinários. A literatura destacou que o uso de antibióticos sem confirmação laboratorial teve impacto direto no aumento de cepas resistentes observadas em exames microbiológicos, dificultando condutas terapêuticas adotadas nos serviços de saúde (Santos et al., 2019).
Os estudos também demonstraram associação entre automedicação e fatores socioeconômicos, especialmente em populações com acesso limitado a serviços médicos. Pesquisas realizadas em regiões com baixa cobertura de atenção primária relataram índices mais elevados de automedicação, sugerindo que a dificuldade de atendimento favorece a busca por alternativas rápidas no ambiente doméstico. Essa relação evidencia que a automedicação não deve ser analisada apenas como comportamento individual, mas como reflexo de fragilidades estruturais nos sistemas de saúde (Arrais et al., 2016). A seguir, apresenta-se a síntese comparativa dos estudos incluídos na revisão:
Tabela 2- Síntese comparativa dos estudos
Autor/Ano | População Estudada | Medicamento Mais Utilizado | Principal Risco Identificado | Prevalência (%) |
Alves et al. (2019) | Adolescentes | Analgésicos | Reações adversas leves | 52% |
Costa et al. (2017) | Adultos | Anti-inflamatórios | Lesão renal | 48% |
Santos et al. (2019) | Adultos | Antibióticos | Resistência bacteriana | 43% |
Oliveira et al. (2020) | Idosos | Polifarmácia combinada | Interações medicamentosas | 57% |
Lopes e Silva (2019) | Trabalhadores | Relaxantes musculares | Mascaramento de sintomas | 46% |
Fonte: Elaborado pela autora com base nos estudos selecionados (2024).
Conforme mostra a Tabela 1, os dados revelam que, embora os grupos populacionais variem, os riscos associados à automedicação convergem para três principais consequências: reações adversas, interações medicamentosas e resistência bacteriana. A literatura demonstra que os eventos adversos frequentemente permanecem subnotificados, uma vez que muitos usuários não associam os sintomas apresentados ao medicamento consumido. Essa ausência de percepção dificulta o monitoramento epidemiológico e retarda a adoção de medidas preventivas (Costa et al., 2017).
Os estudos que abordaram a automedicação em idosos relataram riscos mais graves associados ao uso simultâneo de múltiplos fármacos. A literatura destacou que muitos utilizam medicamentos prescritos para doenças crônicas em conjunto com substâncias adquiridas por conta própria, sem orientação médica ou farmacêutica. Essa combinação favorece interações medicamentosas potencialmente perigosas, como alterações na pressão arterial e disfunções hepáticas, que resultam em hospitalizações prolongadas. Os estudos alertam para necessidade de monitoramento mais rigoroso dessa população (Oliveira et al., 2020).
Entre trabalhadores economicamente ativos, observou-se tendência ao uso repetido de medicamentos para manter a produtividade diária. Os estudos analisados relataram automedicação com analgésicos e relaxantes musculares para alívio de dores associadas à rotina laboral, sem investigação etiológica adequada. Essa conduta resulta no mascaramento de sintomas que poderiam indicar doenças musculoesqueléticas ou neurológicas em estágio inicial. A literatura destaca que esse comportamento contribui para agravamento tardio de patologias ocupacionais (Lopes; Silva, 2019).
As pesquisas também evidenciaram papel das farmácias comerciais como facilitadoras do acesso a medicamentos sem prescrição. Estudos relataram que grande parte dos entrevistados adquiriu medicamentos com indicação verbal de balconistas, sem avaliação profissional registrada. Essa exposição contínua à venda livre demonstra necessidade de fiscalização mais rigorosa e fortalecimento da assistência farmacêutica como componente essencial na prevenção de eventos adversos decorrentes da automedicação (Brasil, 2018).
A presença de antibióticos entre os medicamentos utilizados sem prescrição foi preocupação recorrente nos estudos incluídos. As pesquisas relataram que muitos usuários interromperam o uso antes do término recomendado ou utilizaram sobras de tratamentos anteriores, contribuindo para seleção de microrganismos resistentes. A literatura destacou que os efeitos da resistência bacteriana extrapolam o nível individual, impactando diretamente protocolos de tratamento e exigindo revisão constante das diretrizes clínicas adotadas na saúde pública (Santos et al., 2019).
A revisão também identificou lacunas no registro de eventos adversos relacionados à automedicação, visto que muitos pacientes não relatam o uso prévio de medicamentos durante consultas clínicas. Os estudos indicaram dificuldade dos profissionais de saúde em identificar as substâncias utilizadas pelos pacientes, o que pode comprometer a precisão diagnóstica e interferir na escolha terapêutica adequada. A ausência de registros oficiais sobre os efeitos adversos da automedicação dificulta a formulação de estratégias de prevenção com base em dados estatísticos consistentes (Silva; Ferreira, 2019).
Os trabalhos analisados sugerem que estratégias de educação em saúde têm potencial significativo para reduzir os índices de automedicação, embora as ações existentes ainda sejam consideradas pontuais e com baixa abrangência populacional. Os estudos que avaliaram campanhas educativas relataram redução na compra de antibióticos sem prescrição após intervenções comunitárias mediadas por profissionais de saúde e mídias locais. Esses achados reforçam a importância da comunicação científica acessível como ferramenta de prevenção (World Health Organization, 2021).
A revisão evidenciou que muitos usuários consideram medicamentos industrializados como produtos inofensivos quando comparados a outras substâncias químicas. Essa percepção foi observada principalmente em estudos com adolescentes e jovens adultos, que associaram o uso de analgésicos e anti-inflamatórios a itens de uso cotidiano, como alimentos e suplementos nutricionais. Essa visão distorcida sobre os riscos farmacológicos reforça a necessidade de ações que abordem a automedicação sob perspectiva comportamental e sociocultural (Alves et al., 2019).
Os resultados também revelaram divergências entre os métodos utilizados pelos estudos analisados, o que impactou diretamente na comparação dos dados. Enquanto alguns autores utilizaram questionários padronizados para avaliar a frequência de automedicação, outros adotaram entrevistas abertas, o que dificultou a padronização dos resultados. Apesar das diferenças metodológicas, observou-se convergência quanto ao reconhecimento da automedicação como fator de risco para a saúde coletiva (Arrais et al., 2016).
A discussão dos achados permitiu identificar que a automedicação deve ser compreendida como um fenômeno multifatorial que envolve dimensões comportamentais, econômicas e institucionais. Os estudos destacaram que a prevenção desse comportamento requer integração entre ações de vigilância sanitária, fiscalização da venda de medicamentos e promoção da educação em saúde. A literatura reforçou que a abordagem restrita ao consumo individual não é suficiente para modificar práticas estabelecidas ao longo do tempo (Costa et al., 2017).
A análise comparativa entre os estudos nacionais e internacionais revelou semelhanças quanto à prevalência de automedicação, embora as justificativas apresentadas pelos participantes variem conforme o contexto sociocultural. Em países com acesso amplo à atenção primária, a automedicação foi associada principalmente à conveniência, enquanto em regiões com menor cobertura médica esteve associada à necessidade. Esse contraste evidencia que o enfrentamento desse problema deve considerar as especificidades locais de cada população (World Health Organization, 2021).
Os resultados obtidos durante a revisão sistemática oferecem subsídios importantes para formulação de estratégias de intervenção voltadas ao uso racional de medicamentos. A literatura indica que a atuação conjunta entre profissionais de saúde, instituições educacionais e órgãos regulatórios pode contribuir para redução significativa da automedicação, desde que baseada em dados epidemiológicos confiáveis. O conjunto de evidências analisadas demonstra que a conscientização populacional depende da clareza das informações transmitidas e da acessibilidade dos serviços de saúde (Brasil, 2018).
CONCLUSÃO
A revisão sistemática desenvolvida teve como finalidade analisar a automedicação e seus riscos à saúde pública, com base em evidências científicas publicadas entre 2015 e 2024. Foram identificados padrões recorrentes no uso indiscriminado de medicamentos sem prescrição, com predominância de analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos entre os fármacos mais consumidos. Os estudos demonstraram que a automedicação representa comportamento consolidado em diferentes faixas etárias e contextos socioeconômicos, configurando-se como prática de impacto epidemiológico relevante para os sistemas de saúde.
Os achados evidenciaram associação direta entre a automedicação e o desenvolvimento de eventos adversos, como toxicidade orgânica, interações medicamentosas e agravamento de sintomas mascarados pelo uso inadequado de fármacos. A literatura analisada destacou ainda a ocorrência de resistência bacteriana decorrente do uso incorreto de antibióticos, comprometendo a eficácia de protocolos terapêuticos e ampliando os custos assistenciais. Esses resultados reforçam a necessidade de estratégias contínuas de vigilância e educação em saúde voltadas ao uso racional de medicamentos.
Entretanto, a análise comparativa dos estudos revelou limitações metodológicas que interferem na padronização dos resultados, como tamanhos amostrais reduzidos, ausência de instrumentos validados para aferição do comportamento de automedicação e heterogeneidade nos critérios de inclusão adotados. Tais inconsistências dificultam a quantificação precisa dos impactos clínicos e dificultam a formulação de indicadores epidemiológicos homogêneos. A ausência de monitoramento oficial e a subnotificação de efeitos adversos também foram apontadas como obstáculos ao desenvolvimento de políticas públicas efetivas.
Com base nas lacunas identificadas, recomenda-se que pesquisas futuras adotem protocolos metodológicos mais rigorosos, com definição clara de faixas etárias, classificação precisa dos medicamentos utilizados e acompanhamento longitudinal dos efeitos da automedicação. Ensaios clínicos e estudos multicêntricos poderão fornecer evidências robustas que subsidiem a criação de diretrizes voltadas ao uso seguro de fármacos em diferentes contextos populacionais. A articulação entre instituições acadêmicas, serviços de saúde e órgãos regulatórios mostra-se essencial para fortalecer ações de prevenção e controle.
Os resultados obtidos demonstram que a automedicação deve ser reconhecida como problema de saúde pública com implicações clínicas, sociais e econômicas, exigindo abordagem intersetorial e contínua. O fortalecimento da regulação sanitária, aliado a estratégias educativas baseadas em evidências, representa caminho promissor para redução dos riscos associados a essa prática. Dessa forma, a presente revisão cumpre seu papel ao reunir e analisar criticamente as evidências disponíveis, fornecendo base científica para o desenvolvimento de ações mais eficazes de promoção do uso racional de medicamentos.
REFERÊNCIAS
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BRASIL. Ministério da Saúde. Uso racional de medicamentos: automedicação e riscos à saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
COSTA, Ediná Alves et al. Automedicação: um desafio para a saúde pública. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 22, n. 8, p. 2571-2580, ago. 2017.
LIMA, Maria Goretti Pessoa de Araújo et al. Automedicação e riscos associados: uma revisão integrativa. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 72, n. 3, p. 831-839, maio/jun. 2019.
LOPES, Ana Luiza; SILVA, Roberta Oliveira da. Automedicação na população brasileira: uma análise dos riscos à saúde. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 43, n. 122, p. 789-801, jul./set. 2019.
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SANTOS, Tatiane Cristina dos et al. Automedicação e resistência bacteriana: impactos na saúde pública. Revista Eletrônica de Enfermagem, Goiânia, v. 21, p. 1-10, 2019.
SILVA, Carlos Eduardo Lopes da; FERREIRA, Maria Angélica Pedra. Automedicação e saúde pública: uma análise crítica. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 29, n. 3, p. 1-15, 2019.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. The role of pharmacist in self-medication and self-care. Geneva: WHO, 2021.




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